Sobre Hans Jonas

Hans Jonas nasce em 10 de maio de 1903 na cidade de Mönchengladbach. Seu pai era fabricante de tecidos e sua mãe filha de um famoso rabino. Em 1916 Hans Jonas faz a sua B'nai Mitzvá (que significa, literalmente, filhos do mandamento), nome que se dá à cerimônia que insere o jovem judeu na comunidade judaica e em 1918 ele se torna membro do círculo sionista de sua cidade natal. No semestre do verão de 1921 ele inicia seus estudos de filosofia e história da arte na Universidade de Friburgo, onde assiste as aulas de Edmund Husserl e de Martin Heidegger. Nessa mesma universidade se torna membro da corporação estudantil sionista chamada IVRIA. Ainda em 1921 ele se muda para Berlim, onde permanece até 1923, estudando filosofia na Universidade Friedrich-Wilhelm. Nesse tempo também estuda judaísmo na Escola de Ciências Judaicas de Berlim, vindo a consolidar seu engajamento sionista. Nessa época se torna amigo de Leo Strauss e de Günther Stern (que viria a se chamar Anders, mais tarde) e recebe uma formação agrícola em Wolfenbüttel, em vista de sua emigração para a Palestina.

Entre 1923 e 1924 Jonas continua seus estudos em Friburgo e depois em Marbourg. Estuda então com Martin Heidegger e o teólogo Rudolf Bultmann e estabelece fortes laços de amizade com Hannah Arendt – laços que permaneceram firmes até o fim de suas vidas. Além da jovem Arendt, convive com Karl Löwith, Hans-Georg Gadamer, Günter Stern, que se reuniam em torno de Heidegger. Nesse mesmo círculo participavam Herbert Marcuse, Jeanne Hersch e Emmanuel Lévinas. É nessa época que dá início aos seus estudos sobre a gnose no cristianismo primitivo até que, em 1928, termina seu doutorado sob a orientação de Heidegger sobre o conceito de gnose. Em 1930 publica Agostinho e o problema da liberdade em Paulo. Contribuição filosófica para a gênese da ideia de liberdade cristã ocidental.

Em 1933, com a chegada de Hitler ao poder, Jonas emigra para Londres e outros países da Europa. Em 1934, publica A gnose e o espírito da Antiguidade tardia. Primeira parte: a gnose mitológica. Em 1935 chega à Palestina e se torna amigo de Gershom Scholem e conhece Martin Buber. Três anos depois falece seu pai, enquanto ele era encarregado de alguns cursos na universidade hebraica de Jerusalém. Em 1939 Hans Jonas se alista voluntariamente no exército britânico, em uma brigada formada por judeus. Em 1942, sua mãe é deportada e levada ao campo de concentração de Auschwitz, onde falece no mesmo ano. Esse evento se tornaria uma ferida que Jonas nunca conseguiria cicatrizar. Em 1943 Hans Jonas se casa com Lore e dois anos depois volta à Alemanha como soldado do exército britânico em luta contra o nazismo. É então que toma conhecimento do assassinato de sua mãe.

Retornando à Palestina em 1945, dá várias conferências na universidade hebraica de Jerusalém até que, entre 1948-1949 serve como soldado da armada israelita depois da declaração de independência de Israel. Vale notar que em 1945, ao voltar para a Alemanha, Jonas tem um encontro emocionado com Karl Jaspers, que permanecera em Heidelberg durante toda a guerra junto a sua esposa judia. Visita também Rudolf Bultmann em Marburg e a seu editor, Ruprecht, em Gotinga. Mas o encontro mais marcante foi mesmo com Martin Heidegger. Na visita, de vinte minutos, Jonas se sentiu decepcionado porque esperava de Heidegger alguma palavra de arrependimento em relação ao seu envolvimento com o nazismo. Heidegger não lhe diz nada. Tiveram, depois disso, um último e rápido encontro em 1969, na cidade de Zurique.

É então que Jonas resolve aceitar uma bolsa da McGill University de Montreal e se muda para o Canadá onde começa a lecionar na Carleton-University de Ottawa, em 1950. Em 1954 publica a segunda parte de seu trabalho sobre a gnose: A Gnose e o espírito da Antiguidade Tardia. Segunda parte, 1: da mitologia à filosofia mística.

Em Nova York, nessa época, estavam dois grandes amigos de Jonas: Karl Löwith, então considerado o mais competente aluno de Heidegger, e Hannah Arendt. Certamente isso facilitou sua decisão de aceitar o convite para trabalhar na New School for Social Research, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1976. Em 1958 publica A religião gnóstica: a mensagem do Deus estranho e os primórdios do cristianismo. Em 1963 a relação com Arendt é abalada devido à publicação de Eichmann en Jerusalém, mas restabelecida depois de dois anos, graças, principalmente, ao empenho de Lore Jonas.

Jonas começa a ficar conhecido em 1964 a partir de sua conferência Heidegger e a Teologia até que em 1966 publica sua marcante obra O fenômeno da vida: fundamentos para uma biologia filosófica e, em 1974, os seus Ensaios filosóficos: do credo antigo ao homem tecnológico. Quatro anos depois publica ainda Sobre a fé, a razão e a responsabilidade: seis ensaios, até que em 1979 vem a público sua obra magna: O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, publicada primeiramente em alemão. Em 1985 ele publica ainda Técnica, medicina e ética, em 1992 Investigações filosóficas e conjecturas metafísicas e em 1993, Filosofia. Visão retrospectiva e antecipada ao fim do século. Em 1969 se torna sócio fundador do Hastings Center-on-Hudson, um dos mais influentes centros de bioética do mundo.

Em 1984 recebe o Prêmio Leopoldo Lukas da Faculdade de Teologia de Tubinga, na Alemanha; em 1987 ganha o Prêmio da Paz outorgado pelo mundo editorial alemão e no mesmo ano recebeu a Cruz Federal do Mérito da República Federal da Alemanha e foi nomeado filho predileto de sua cidade natal; em 1993 recebe o prêmio Nonino, em Urbino, Itália. Foi nomeado Doutor honoris causa pela Universidade de Constança e pela Universidade Livre de Berlim. Foi professor visitante das Universidades de Princeton, Columbia e Chicago.

Hans Jonas morreu em New Rochelle, próximo a Nova York, no dia 5 de fevereiro de 1993. Seu corpo está enterrado no setor judeu do cemitério ecumênico de Hastings.

 

(Texto retirado, com leves modificações, de OLIVEIRA, Jelson. Compreender Hans Jonas. Petrópolis: Vozes, 2014).