BIOGRAFIA DE HANS JONAS

Período de Juventude (1903 – 1921)

1903

- Jonas nasceu em 10 de maio, na cidade de Mönchengladbach, Alemanha; filho de Gustav Jonas, dono de uma fábrica têxtil, e de Rosa Horowitz, filha do grande rabino Jacob Horowitz.

1916

- Seu irmão mais novo, Ludwig, morre;

- Chega ao seu bar mitzvah (בר מצוה), isto é, quando uma criança judia atinge a sua maturidade e passa a ser um membro maduro na comunidade judaica, e consequentemente responsável pelos seus atos, de acordo com a lei judaica;

 

1918

- Contra a vontade de seu pai, torna-se um membro do sionismo, movimento político que defendia o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado Judaico, por isso sendo também chamado de nacionalismo judaico;

 

1921

- Faz seu exame final do curso secundário (Abitur), bacharel, no Ginásio de Mönchengladbach, com um ensaio de ética universalista, no qual Jonas utiliza já o conceito de responsabilidade, embora naturalmente não adiantando a ideia fundamental de Das Prinzip Verantwortung[1].

 

Período de Formação Acadêmica (1921 – 1933)

1921

- Já no semestre de verão desse ano, depois de ter concluído o ensino secundário, Jonas deixa Möchengladbach e passa a estudar filosofia e história da arte na Universidade de Freiburg, época em que foi aluno de Husserl, Heidegger e Jonas Cohn. Com Heidegger, em especial, Jonas assiste a um seminário sobre o De Anima, de Aristóteles, e a um curso sobre as Confissões, de Agostinho[2].

- Primeiro encontro com Günther Stern (depois: Anders) e Karl Löwith;

 

- Torna-se membro da corporação estudantil sionista (IVRIA);

 

- Ainda no semestre de inverno desse mesmo ano, Jonas se muda para Berlin, onde estuda filosofia na Universidade Friedrich-Wilhelm com nomes como Eduard Spranger, Ernst Troeltsch, Hugo Greemann, Ernst Sellin e Eduard Meyer, e também realiza estudos judaicos na Hochschule für die Wissenschaft des Judentums [Faculdade de Ciências Judaicas], tendo como professores Julius Guttmann, Harry Torczyner e Eduard Baneth; é desse período o início da amizade com Leo Strauss e Güther Stern (Anders) e também o envolvimento com a corporação estudantil sionista Makkabäa e Kartell Jüdischer Verbindungen [Cartel das Corporações Judias] (KJV).

1922

- Publica seu primeiro artigo “Die Idee der Zerstreuung und Wiedersammlung bei der Propheten [A idéia de dispersão e reunião nos Profetas]” (cf. KGA III/2, p. 3-18), no qual busca apresentar uma interpretação nacional-religiosa da mensagem dos profetas, algo como uma fundamentação histórico-religiosa do sionismo.

1923

- De março a outubro desse ano, Jonas vive em Wolfenbüttel, onde se dedica à sua formação agrícola (Hachschara), pois cogita se mudar para a Palestina; muda de ideia, entretanto, e resolve seguir com os estudos, transferindo, então, no fim desse mesmo ano, para Freiburg, onde mais uma vez se torna aluno de Husserl; no curso de inverno (1923-24) deste reencontra Günther Stern e conhece Rudolf Carnap e Max Horkheimer;

- o plano era ficar um ano em Freiburg, mas Heidegger tinha já partido para Marburg, arrastando consigo seus alunos, ao que Jonas acha melhor mudar de universidade também;

1924

- Em Marburg, junta-se já no semestre de verão ao círculo de alunos de Heidegger, dentre os quais se encontravam Gerhard Nebel, Karl Löwith, Hans-Georg Gadamer, Gerhard Krüger, Günther Anders, Walter Bröcker – e Hannah Arendt, que veio para Marburg apenas quando do semestre de inverno de 1924-25. Jonas conhece Arendt ainda no ano de 1924.

 

- O primeiro curso de Heidegger em Marburg que Jonas frequentou (no semestre de verão de 1924) foi Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie[3] (cf. HJ-18-1-4 e 18-2-4).

 

- Em Marburg foi também aluno de Rudolf Bultmann, e foi, inclusive, no seminário teológico deste renomado teólogo, que se inicia a amizade de Jonas e Arendt.

 

- No semestre de inverno de 1924-25 Jonas está no curso sobre O Sofista, de Platão, cujas transcrições foram entregues para o Arquivo Heidegger em 1984 (cf. HJ 18-1-5);

1925

 

- Jonas frequenta o Seminário de Bultmann sobre o Evangelho segundo São João, no qual inicia seus estudos sobre o gnosticismo antigo, apresentando um seminário sobre o tema gnosis Theou[4].

 

- Jonas frequenta (no semestre de verão de 1925) o curso de Heidegger Zur Geschichte des Zeiproblems e também Logik: die Frage nach der Wahrheit (semestre de inverno de 1925-26) (cf. HJ-18-1-4 e 18-2-4).

1926-1927

 

- Não há informações precisas sobre este ano. Mas Jonas afirma, em suas Erinnerungen que, depois de ter completado seus créditos e encontrado o tópico de sua tese, ele passa pelas universidades de Heidelberg, Bonn e Frankfurt;

 

- Mais certo é que no outono desse ano termina o trabalho de tese e entrega-o a Heidegger; passa o inverno em Marburg à espera

da apreciação do trabalho de tese;

 

1927-1928

- No semestre de inverno de 1927-28, frequenta o curso Phänomenologische Interpretation von Kants Kritik der reinen Vernunft [5] (cf. HJ 18-2-5).

- Nesse mesmo semestre, Jonas apresenta em 27 de janeiro de 1928 um seminário (Referat) no curso de Heidegger sobre a noção de vontade (cf. HJ-4-10-8). É este seminário que mais tarde será a base do seu primeiro livro, sobre o problema da liberdade em Agostinho, publicado em 1930.

1928-1933

- Obtém o grau de doutor com a tese Der Begriff der Gnosis [O conceito de gnose] (orientada por Heidegger), defendida precisamente no dia 29 de fevereiro de 1928[6].

- O percurso de Jonas depois de defender sua tese alternava principalmente entre Heidelberg, Paris, Frankfurt e Köln. Trata-se de um dos períodos mais nebulosos e sem referências em sua trajetória intelectual. Jonas afirma mesmo que do fim de seu doutorado até a ascensão de Hitler ao poder ele planejou a elaboração de sua habilitação, mas que nunca chegou a estabelecer um tema preciso

- É certo que depois de defender sua tese, Jonas parte, ainda em 1928, para Heidelberg, onde por dois semestres estuda com Karl Jaspers, em cujo seminário apresentou um trabalho intitulado “Die zeitliche Struktur der Sorge bei Heidegger” [A estrutura temporal do cuidado em Heidegger][7], e estudou também especialmente a sociologia da religião de Max Weber (já morto na época) e onde também participou ativamente do círculo de Karl Mannheim (Privatdozent em Heidelberg àquela época) – Jonas participa, em 1929, do Congresso Internacional de Sociologia em Zurich, onde intervém publicamente[8];

- Certo é também que ele passou o inverno de 1928-29 em Paris, onde estudou na Sorbonne e também estabeleceu uma breve amizade com Hans Yorck Von Wartenburg, sobrinho do conde Paul Yorck von Wartenburg, um homem de grande cultura cuja correspondência com Wilhelm Dilthey tinha revelado que as ideias mais originais e significativas deste último vinham, na verdade, de Yorck;

- Mas durante o verão de 1929, mais precisamente no mês de agosto, Jonas participa também do 16° Congresso dos Sionistas na cidade de Basel [Basiléia]; pouco tempo depois de voltar desse congresso, ele encontra Heidegger e pela primeira vez passa a noite no chalé de Todtnauberg, onde tem uma longa conversa com o ex-orientador

- E em 1930, Jonas publica seu primeiro livro, “Augustin und das paulinische Freiheitsproblem. Ein philosophischer Beitrag zur Genesis der christlich-abendländischen Freiheitsidee” [Agostinho e o problema paulino da liberdade: uma consideração filosófica para a gênese da ideia cristã-ocidental de liberdade], e logo em seguida, sua tese doutoral, “Der Begriff der Gnosis” [O conceito de gnose].

- Durante todo o período que vai do fim de seu doutorado até 1933, Jonas aspirou seriamente um posto de Privadozent, mas assume que “não soube claramente sobre o que trabalhar durante esses últimos anos na Alemanha”, e com a chegada de Hitler ao poder a questão se tornou supérflua;

 

 

Período de Emigração e de Guerra (1933 – 1949)

1933

- Com a ascensão de Hitler ao poder e o famoso 1º de Abril, dia do boicote contra os judeus, Jonas decide deixar a Alemanha e segue então para Londres (Inglaterra), onde encaminha a preparação de seu novo livro;

1934

- Publica “Gnosis und spätantiker Geist I: Die mythologische Gnosis. Mit einer Einleitung Zur Geschichte und Methodologie der Forschung” [Gnose e o espírito tardo-antigo I: A gnose mitológica. Com uma introdução para a história e metodologia da pesquisa];

 

1935

- Deixa Londres e se muda para Jerusalém (Palestina), onde ficará até 1949;

- Amizade com Gershom Scholem, Hans Lewy, Hans-Jacob Polotsky, George Lichtheim, ShmuelSambursky com a formação do círculo de Pilegesch.

1936

- Visita de seus pais a Jerusalém, e inscrição voluntária de Jonas na organização de autodefesa Hagana em função de levantes árabes contra o plano de assentamentos judeus.

 

1937

- Primeiro encontro com Eleonore Weiner (que, alguns anos depois, viria a ser sua esposa) e tempo de pesquisa no Intituto Rhodos de Estudos Clássicos para dedicação ao segundo volume do livro sobre a gnose.

 

1938

- Recebe notícia da morte do pai, e um depois de grande esforço, não consegue tirar a mãe da Alemanha, ela que tinha cedido ao filho, Georg Jonas (irmão de Jonas), seu certificado de imigração para a Palestina.

- Neste mesmo ano, Jonas assina alguns contratos na Universidade Hebraica, e, com a morte de Husserl, ele mesmo se encarrega do discurso de homenagem, publicado no mesmo ano, em hebraico, e atualmente publicado, em inglês, com o título “Edmund Husserl and the ontological question” (cf. Jonas, 2001[1938]), e, em alemão, na Edição Crítica (cf. KGA III/2, p. 181-194).

1939

- Após invasão alemã da Polônia, Jonas escreve seu Unsere Teilnahme an diesem Kriege. Ein Wort an jüdische Männer, que se encontra hoje publicado na Edição Crítica de suas obras (cf. KGA III/2, p. 61-76), e se alista voluntariamente ao exército britânico.

 

1940

Depois de passar por treinamento no campo de Sarafant, integra o First Palestine Aircraft Battery do exército britânico, e participa de missões em Haifa para expelir os ataques desde Damasco e Beirute.

1942

Deportação da mãe para o gueto de Lodz, e depois para Auschwitz, onde morrerá.

1943

Em plena 2ª Guerra, Jonas se casa, em Haifa, com Eleonore Weiner.

1944-1945

- Agora membro da Jewish Brigade Group, Jonas combate a Alemanha nazista no mediterrâneo e na Itália (até o ano de 1945);

 

- É durante esse período da 2ª Guerra que escreve suas “cartas doutrinais” (Lehrbriefe), em que esboça já os rudimentos do que viria ser sua biologia filosófica.

1945

Cumpre a promessa de que só voltaria a sua antiga pátria como soldado. Isto acontece em junho de 1945, momento em que Jonas atravessa a Alemanha com sua unidade. Visita sua cidade natal, Mochengladbach, e toma conhecimento da morte de sua mãe. Aproveita e viaja também a Göttingen, Marburg e Heidelberg, lugares onde reencontra Bultmann, Jaspers e também Julius Ebbinghaus. Em novembro deste mesmo ano, retorna para a Palestina.

1946

- Sem expectativa de uma cadeira de professor, Jonas não consegue mais que uma atividade docente esporádica na Universidade Hebraica de Jerusalém e no English Council of Higher Studies (até 1948). É nessa época que se confronta com Alfred Whitehead e Henri Bergson.

1947

Palestra “Das Problem des Lebens im Rahmen der Ontologie” [O problema da vida no contexto da ontologia]”, que, pelo título, é a primeira versão do primeiro capítulo do seu futuro livro The Phenomenon of Life.

1948

- Em 14 de maio acaba o mandato britânico sobre a Palestina e o governo provisório judeu proclama a independência do Estado de Israel. No dia seguinte, 15 de maio, começa a intervenção egípicio-árabe. Jonas é então requerido para o serviço militar como oficial da artilharia do exército israelense.

- Escreve uma importante carta para Leo Strauss, na qual revela seu atual programa filosófico, isto é, uma biologia filosófica, salientando, inclusive, a existência de estudos individuais prontos e a serem publicados, como o próprio ensaio “Is god a mathemathician?”. Na carta, Jonas pede ainda auxílio a Strauss no sentido de conseguir algum posição como professor nos EUA.

- Neste mesmo ano, nasce sua filha Ayalah;

 

Período Final de Emigração: da Passagem pelo Canadá até EUA (1949 – 1993)

1949

- Com a ajuda de Leo Strauss, Jonas consegue uma posição em Montreal, no Canadá, onde se estabelece como fellow da Lady-Davis-Foundation. Nessa época em que esteve em Montreal, Jonas também foi professor particular do filho do magnata Samuel Bronfman, o então jovem Edgar Bronfman, que mais tarde veio a se tornar umas das figuras importantes do judaísmo americano.

 

- Depois (a começar do inverno desse mesmo ano) assumiu cargo de docente no Dawson College, que ficava em Quebec, perto de Montreal. Jonas ministra aí uma “Introdução à Filosofia”, e mesmo com dificuldades de lecionar em inglês faz sucesso com os alunos.

 

- Jonas escreve para Arendt comunicando de sua chegada ao Canadá. Em carta para Arednt, Blücher sugere que Jonas afirma ter planos de voltar [não há referência do lugar para o qual ele pretendia voltar – talvez Jerusalém], mas que ficaria no Canadá até o verão [de 1950], mas Blücher acredita que, na verdade, “ele [Jonas] buscará sua salvação nos Estados Unidos”[9].

 

- Pela primeira vez, Jonas viaja ao nordeste dos EUA durante o natal desse ano. Ele se encontra, em New York, com Hannah Arendt e Günther Stern (Anders) – separadamente, pois já não estavam mais casados –, e com Karl Löwith (então professor na New School). Além de New York, viaja também para Chicago, onde se encontra com Leo Strauss, e também para Cincinati, lugar onde encontra com Leo Baeck e Jacob Taubes.

 

 

1950

- Em maio desse ano (Jonas ainda é professor no Dawson College), nasce do filho Jonathan (John);

 

- Mas, mesmo como professor, Jonas enviara currículo a várias universidades, e quando seu filho nasceu conseguira um posto no Carleton College de Ottawa (Canadá), inicialmente como professor visitante (já a partir de maio de 1950) –título que preferira em vez de professor assistente –, e logo em seguida como professor associado; é a partir do início dessa fase como visiting professor que Jonas considera ter alcançado seu “primeiro posto acadêmico tal como deve ser”. Em seu primeiro semestre em Ottawa, Jonas ministra os seguintes cursos:

   * “História da filosofia antiga até Aristóteles”,

   * “História da filosofia moderna de Descartes a Kant”,

   * “Filosofia da religião”[10].

 

- Profere a conferência “Causality and Perception” na American Philosophical Association;

1950-1951

 

- Importante amizade de Jonas com o grande biólogo Ludwig von Bertalanffy, quem gozava de mais estima de Jonas do que seus próprios companheiros do departamento de filosofia[11];

 

1951

- Por influência de Leo Strauss e Karl Löwith, Jonas atua, em algumas ocasiões, como professor visitante na Graduate Faculty of New School for Social Research. Na primeira vez, ele ministra o curso “The organism in the theory of being since Descartes [O organismo na teoria do ser desde Descartes]”. O programa de curso do semestre de verão constava: “O problema da vida numa ontologia filosófica. O background dualista. Descartes, os ocasionalistas, e Spinoza. Materialistas: Hobbes, La Mettrie. As mônadas orgânicas de Leibniz. A teologia crítica de Kant. Evolucionismo, mecanicista e emergentista: Darwin, Bergson, Alexander. O atomismo da genética e as tentativas holísticas (synholistic) na biologia moderna. A filosofia do organismo de Whitehead”. Não há registros de onde Jonas se instalou durante o período do curso[12]. Este curso será editado no volume II/3 da Edição Crítica da obra de Jonas.

 

- Recusa convite da Universidade Hebraica de Jerusalém[13], o que lhe custou a acusação de traição ao sionismo;

 

- Jonas publica ainda nesse ano dois ensaios, dentre os quais o importante “Is God a Mathematician?”

 

1952

- Faz primeira viagem para a Europa depois de ter chegado ao continente norte americano. A razão era a apresentação do trabalho “Motility and emotion” no International Congress of Philosophy em Bruxelas (Bélgica), onde conhece Hans Blumenberg, que trazia notícias de Walter Bröck, um ex-colega de Jonas dos tempos de Marburg. Tratava-se de uma convite para lecionar na Universidade de Kiel, coisa que ele viria a recusas;

- Jonas vai a New York, provavelmente em função do curso “The organism in the theory of being since Descartes [O organismo na teoria do ser desde Descartes]”, que novamente ministrou na New School no semestre de verão desse ano, e fica na casa de Blücher – e Arendt, que estava fora – por quase dois meses. Em carta datada de 7-6-52 para Arendt, Blücher a informa: “Jonas virá para ficar na quarta [11-6-52], e estou um pouco inquieto. Não ter você aqui já é ruim o bastante, mas daí ter alguém mais em casa, ah, isto é demais”[14]. Em carta já de 14-6-52, Blücher comunica a chegada de Jonas e manda os cumprimentos dele para Arendt e mais a frente, depois de demonstrar pouco humor para conversas com as pessoas em geral, Blücher confessa: “mesmo com Jonas sou bastante curto. Quando você não está ‘por perto’, eu me torno em um verdadeiro demônio”[15]. Esta situação se prolonga para desgosto de Blücher, que dessa vez, em carta de 21-6-52, mostra-se completamente impaciente: em função da impossibilidade de um descanso, diz ele: “ter Jonas aqui é um incômodo. Não posso mais aguentar as pessoas em minha casa. Porque simplesmente não consigo negar a pessoa. O pobre rapaz finalmente se sente liberado de sua família e quer fazer uso de seu tempo. Na biblioteca, como um bom rapaz, mas também só para viver. E minha vida, com todas as pessoas interessantes nela, é bem atrativa para um intelectual provinciano. Mary [McCarthy] esteve aqui por dois dias, e você tinha que ver o que ele se mostrou para ela. Ela se divertiu muito, mas eu fiquei bem inquieto. Ele é tão ingenuamente franco e egoísta que não se pode sequer ficar irritado com ele, e ele canta seus louvores aos céus que, não preciso dizer, é a melhor forma de me ‘acalmar’. Então, independentemente do que você faça, não morra de pena por seu metidinho [snubby], e não se intrometa. Eu vou sobreviver de alguma forma. Mas nunca mais”[16]. A estadia de Jonas tinha certamente acontecido a pedido de Arendt, e o que Blücher afirma mostra de alguma forma a forte amizade de Arendt e Jonas. Em sua carta de 21-6-52 a Blücher, entretanto, Arendt se desculpa com seu marido: “Então, querido, chega de bate-papo! ‘Pelo amor de Deus, arranje um ar-condicionado para o seu quarto’. Eu me sinto péssima por Jonas, eu o convenci a respeito disso, parcialmente por constrangimento e parcialmente por pânico de dinheiro [money-panic]. Então, louca duas vezes. Pobre metidinho [snubby]”[17]. Em carta de 2-8-52, Blücher comunica o retorno de Jonas para o Canadá e acrescenta uma última ironia: “fui particularmente gentil com ele nos últimos dias, e disse que me desculpava por não ter podido passar mais tempo com ele. Mas ele mal tinha conseguido sobreviver ao único curso que ministrou, então acho que ele entendeu”[18].

- É desse ano também a publicação o ensaio Gnosticism and Modern Nihilism;

 

 

1953

- Publica o ensaio A Critique of Cybernetics;

1954

- Sai a publicação do livro Gnosis und spätantiker Geist. Teil II, 1: Von der Mythologie zur mystischen Philosophie;

- Na virada de 1953-54, o departamento de filosofia da New School decidira contratar Jonas. A decisão envolveu uma batalha nos bastidores. Como o próprio Alfred Schultz revela em sua carta, de 21 de janeiro de 1954, para Gurwitsch, de um lado, ele (Schultz) tinha a intenção de trazer para a New School o fenomenologista Aron Gurwitsch, mas ao contrário de seus planos, o comitê, sob a influência de Leo Strauss e sua panelinha – é este o termo que Schultz utiliza – se decide por Jonas, que recebera 9 votos contra os 7 de Gurwitsch[19]. Em 27 de janeiro de 1954, Schutz também escreve uma carta para Jonas explicando o resultado. Ele pede que Jonas envie seus temas para que o catálogo de 1954-55 fosse elaborado. No processo, entretanto, aparece o empecílho de Jonas ter já iniciado a tentativa de se tornar cidadão canadense, o que impedia a imigração para os EUA[20]. Assim, Hans Staundinger decide que Jonas aparecesse no catálogo como professor visitante para que isso não o impedisse de conseguir a cidadania canadense, e ao mesmo pudesse dar as aulas na New School até assumir definitivamente. Essa situação causa um certo entrave entre Schutz e Jonas a respeito da proposta dos cursos que Jonas ministraria[21].

1955

- Mas, depois de permanecer em Otawa de 1950-1955, embora lecionando cursos esporádicos na New School, Jonas se torna, a partir de 1 de janeiro de 1955, definitivamente professor da New School for Social Research em New York, estabelecendo-se especificamente em New Rochelle (NY)[22];

 

- Começa suas amizades com os matemáticos Wilhelm Magnus e Kurt Friedrichs, com o economista Adolph Lowe (Löwe), com os fenomenologistas Alfred Schütz e Aron Gurwitsch, e também com o teólogo Paul Tillich; intensificação da relação com Arendt e Blücher.

 

- Nascimento da filha Gabrielle;

 

- Em carta de 1 de março de 1955, Arendt pede a Blücher que comunique a Jonas que ela conhecera um amigo de Jonas do Canadá, “um fisiologista de nome impronunciável”, e ainda aconselha Jonas a não ir para lá [ao que tudo indica ela se refere à Hoover Library em Stanford]: “parece paradisíaco – diz ela – mas é o inferno com todas aquelas afabilidades da era moderna”[23].

 

- Depois de afirmar não ter notícias de Jonas[24], Blücher diz em carta do fim de novembro de 1955 que Jonas foi visita-lo[25]. Em carta da primeira metade de dezembro de 1955, Blücher escreve que gostaria que Camus fosse escolhido para proferir palestra na New School, mas que “provavelmente a coisa toda terminará com Jonas decidindo quem deverá ser”[26].

 

 

1956-1957

- Já desde 1954, e durante esse período, mais incisivamente, Jonas tenta encaminhar a publicação de seu livro Organism and Freedom, que infelizmente não veio a lume. Tal livro, no qual o filósofo oferece uma visão mais sistemática de sua biologia filosófica, encontra-se atualmente no Hans Jonas Archiv, e será publicado em breve no volume II/2 da Edição Crítica.

1958

- Em carta de 29-6-58 para Arendt, Blücher, ao buscar saber se Arendt tinha emprestado seu livro de biologia para alguém, pergunta-se se “Jonas, nosso novo filósofo natural”[27] não tinha o tal livro.

- Apesar de já um “filósofo natural”, Jonas publica ainda uma versão em inglês de seus trabalhos sobre o gnosticismo: The gnostic religion.

- Nesse mesmo ano, Jonas faz sua primeira incursão sobre a questão da técnica moderna em seu ensaio “The practical uses of theory”, o qual publica no ano seguinte.

1959-1960

Retira-se por um ano da New School e passa um ano sabático em Munique[28].

1961

Profere sua conferência Ingersoll Lecture, intitulada “Immortality and the modern temper”, na School of Divinity da Universidade de Harvard.

1962

Recebe título de doutor honoris causa da Hebrew Union College, em Cincinati.

1963

- Momento de crítica e rompimento (por mais ou menos dois anos) da relação com Arendt. A razão da desavença era o livreo de Arendt sobre Eichmann. Em 1961, Arendt é enviada como correspondente do New Yorker para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann[29]. De lá enviava suas impressões sobre Eichmann para Blücher, o qual a deixava a par das notícias da imprensa americana sobre o caso; também Jaspers cumpria o mesmo papel da parte da imprensa europeia e Blumenfeld, a imprensa local, israelita. A imagem que Arendt fez de Eichmann não era a de um monstro como esperavam e imaginavam Jaspers e Blumenfeld, mas a de um estúpido. E não era meramente estúpido, era mais exatamente incapaz de pensar. Blücher sempre pensou o mal como um “fenômeno superficial”, e, em carta a Jaspers, ela afirma que essa ideia a impulsionou a subtitular o livro com “a banalidade do mal”. Essa era uma influência que Blücher adquirira a partir da visão de Bertolt Brecht, a qual Arendt não deixou de citar em entrevista. É assim que Young-Bruehl narra o que ela chama de a cura posterior de Arendt diante de seu pasmo frente ao homem que conhecera no julgamento, e que antes imaginava ser de outro modo: se esperava um monstro, convenceu-se de que Brecht e Blücher estavam certos sobre o palhaço e pequeno canalha que apesar de atrocidades não merecem ser tratados como grandes canalhas. Depois de um período realmente conturbado de doença do marido e acidente de carro que lhe custaram sequelas, Arendt começa a trabalhar com o enorme material sobre o julgamento de Eichmann até que começa a aparecer a série dos cinco artigos no New Yorker.

- Mas seu relatório não foi publicado de imediato; só apareceu quando de sua volta de Jerusalém a New York. Jonas se recorda que ela o dissera antes mesmo da publicação de seu relatório: “creio que com o que tenho a relatar, gerarei bastante alvoroço em reduto judeu” (Erinnerungen 287). Jonas não sabia o que estava por vir nessa época, pois Arendt não lhe dera detalhes, mas logo o mistério se dissolveu: desde o primeiro artigo Jonas se diz horrorizado: “em primeiro lugar com o tom, em segundo lugar com o toque explicitamente anti-sionista de suas considerações, e em terceiro sobre a ignorância de Arendt a respeito das questões judaicas” (Erinnerungen 287-88). Desses três pontos, o último (conhecimento de judaísmo) não era surpresa para Jonas: “[Arendt] nunca se apresentara como uma autoridade em judaísmo. Sua compreensão sobre o judaísmo era mínimo. Seus conhecimentos de história judia não iam além de Moses Mendelssohn. Para ela a história do judaísmo – do judaísmo moderno, do judaísmo alemão, assimilado e emancipado – começava em essência com o final do século XVIII. Tudo o que vinha anteriormente ficara envolto em uma neblina generalizada e se perdia na obscuridade dos tempos e da Bíblia, que tampouco dominava. Conhecia bem o Novo Testamento; aprendera sobre isto com Bultmann. Nossa Bíblia, ao contrário, nem sequer lera” (Erinnerungen 288). Sobre o sionismo a primeira coisa que Jonas lembra é que Arendt desempenhou um papel apenas de “hóspede” nesse movimento, e isso por pouco tempo. Ela percebeu que uma resposta ao nazismo só poderia vir do sionismo e que o programa de assimilação judia estava fadado ao desastre[30]. Mas nunca abandonou sua vinculação à esquerda alemã, por grande influência de seu esposo Günther Stern (depois Anders), que era comunista, e ajudara a fundar o partido. De qualquer forma, o compromisso pessoal foi com o sionismo e isto não era resultado da influência do próprio Jonas, mas em função da influência de Kurt Blumenfeld, especialmente com a ascensão de Hitler. Por volta de 1936 confessa-se a Jonas como sionista. Mas não durou muito, pois já depois da guerra Jonas afirma ter lido seu ensaio “Sionismo reconsiderado”, onde ela claramente se afasta do movimento. Jonas, Scholem e uma amiga de Arendt que trabalhara com ela na Alijah juvenil ficaram consternados com a mudança de posição de Arendt.

Sobre o tom de Arendt, sua biógrafa explicita claramente que no livro ela “exibia com frequência seu estilo irônico e um tom imperativo; e algumas de suas passagens mais polêmicas se distinguiam por uma peculiar insensibilidade” (Young-Bruehl, 1993[1982], p. 430). Jonas ficou especificamente insatisfeito com a maneira com a qual ela apresentava os seus artigos, num tom sarcástico e mesmo errôneo sobre o papel dos judeus e do sionismo. Ele exemplifica sua insatisfação com a alteração que Arendt fez do título do artigo de Robert Weltsch, de “Levava com orgulho, a mácula amarela” por “Levava com orgulho, a estrela amarela”, pois ela assim insinuava que este “tinha dado aos nazis a ideia da estrela amarela dos judeus”. E acrescenta: “nem sequer sabia, ou preferiu esquecer, que o distintivo amarelo tinha sido um invento medieval” (Erinnerungen 290).

Jonas liga para Arendt e demonstra sua insatisfação e vontade de ter com ela pessoalmente, e escreve, inclusive, uma carta. Mas a conversa por telefone demonstrara que ele nada conseguiria: “Arendt não escutava a razões quando já tinha formado sua própria opinião sobre algo” (Erinnerungen 290). Jonas a lembrara do fato de que seus amigos conheciam e expressavam sempre seu am-ha-arazut (desconhecimento de questões judaicas). Arendt permanecera implacável: chega a dizer que a tese da perenidade do anti-semitismo era uma invenção sionista do final do século XIX. Com isso, Jonas se dá conta de que ela “nem sequer conhecia a Pésaj-Hagadá, onde está escrito: ‘de geração em geração, desde os faraós, levantam-se da cama para exterminá-los’” (Erinnerungen 291). Eram erros fáticos, de história, que ela não conhecia e ainda fechava os olhos, nunca os admitindo. Mas ao que parece foi a tese da banalidade do mal que lhe foi “difícil de perdoar”, isto é o modo como ela buscou mostrar que Eichmann era “inocente”, “não sabia o que fazia”, e que “cumpria fielmente aquilo que lhe havia sido encomendado” (Erinnerungen 292). Com essa situação Jonas via ruir o que era entre eles o princípio de uma tolerância intelectual: “Bem, pensas assim sobre uma coisa, e eu penso diferente, mas ambos temos uma boa base, e uma posição séria sobre o tema, e ainda assim podemos chegar a conclusões distintas” (Erinnerungen 293). Mas para Jonas, a atitude de Arendt sobre o caso já não era respeitável. Ela demonstrava não conhecer certos fatos, mas não o admitia. Era Jonas que tinha rompido com ela, e não o contrário, como o afirma a biógrafa de Arendt, Elizabeth Young-Bruehl[31]. Jonas diz não saber o tempo exato que esta ruptura perdurou, mas que isto levou algo em torno de dois anos.

1964

Palestra “Heidegger and Theology” na Drew-University, em New Jersey, que representou uma dura crítica a Heidegger. A conferência foi proferida também em cidades alemãs como Frankfurt a. M., Heidelberg, Göttingen, Marburg und Tübingen. O contexto do ensaio era: “os problemas da hermenêutica, em especial o papel desempenhado pelo último Heidegger quanto à linguagem da teologia protestante”. Tratava-se, assume Jonas, de um “sério ataque contra Heidegger”, eis como Jonas enxerga esta conferência. O motivo pelo qual foi Jonas a abrir o colóquio internacional era o fato de ter sido aluno de Heidegger, que era a opção inicial, mas que não pôde ir. Pensava que o ex-aluno ofereceria uma visão favorável do mestre. Mas já pela razão do aceite do convite se percebe que o que os participantes do colóquio veriam seria outra coisa. Diz Jonas:

 

“Essa foi uma das raras vezes que não fui de uma sinceridade irreprovável, pois não fiz qualquer coisa para dissipar a impressão de que forneceria uma introdução favorável à Heidegger, em um espírito amistoso em relação a ele. Mas me disse ao contrário: ‘agora, é a minha vez, o momento de prestar contas’”.

 

Repercussão. E como é sabido, o “discurso fez sensação”, com direito a ovação e primeira página do New York Times. Jonas concedeu, inclusive, uma entrevista no dia seguinte ao correspondente do Jornal, entrevista que apareceu na primeira página da parte cultural. Segundo o próprio Jonas: “uma história de guerra na primeira linha de frente, com uma larga manchete”.

 

Reações. Embora uma das mais eficazes retoricamente, tal conferência foi também uma das mais cuidadosamente discutida intelectualmente. O exemplo maior dado por Jonas é o texto de William J. Richardson, que defendia, ao contrário de Jonas, a compatibilidade entre o último Heidegger e a teologia cristã. Pouco mais de um mês da conferência proferida por Jonas, Richardson profere sua própria conferência em ataque ao texto de Jonas, no curso anual sobre Suarez na Fordham University [trata-se de “Heidegger and God: and professor Jonas”]. Jonas não foi convidado, mas ouviu falar do evento e foi ao mesmo. Ele chega atrasado, pois tivera problema para estacionar o carro, e, ao entrar na sala de conferência, a primeira palavra que ouve é “Jonas”. Richardson se referia à conferência de Jonas na Drew University, e apresentava sua resposta às teses de Jonas. Para Richardson, Jonas compreendera mal Heidegger. Ao contar esse episódio, Jonas mostra que não ficou satisfeito com a resposta de Richardson, ao contrário do que poderia se pensar com sua declaração a Culianu. Pois ele diz que a exposição de Richardson sobre Heidegger “tratava, para dizer em termos ligeiramente satíricos, da validade cristã de sua última filosofia, de seus arranjos com a fé cristã em Deus”.

As reações se estenderam pela Alemanha também, pois Jonas foi convidado para proferir novamente sua conferência sobre Heidegger, especialmente nas universidades de Frankfurt e Heidelberg, evitando, claro, Freiburg, que ainda contava com a presença do próprio Heidegger. Sobre as reações, Jonas conta o seguinte:

 

“Lembro-me sempre que Theodor W. Adorno ficou entusiasmado, enquanto Gadamer parecia nervoso, mas não se juntou à discussão e me confidenciou mais tarde: ‘não quero colocar nossa amizade em jogo. Portanto, eu lhe entendo. Mas, privadamente, sou obrigado a lhe dizer que sua crítica à Heidegger é completamente equivocada”.

 

            Em Tübingen, Jonas teve seu primeiro e último encontro com Ernst Bloch. No dia seguinte à conferência, Bloch convida Jonas a sua casa, e ele passa a tarde na casa de Bloch, onde têm uma boa conversa.

            “No conjunto”, diz Jonas, “minha conferência foi em toda parte bastante aplaudida, seguida não sem alguma alegria maligna”. Heidegger, claro, soube da conferência, e por meio de Richardson, que encontrara com Heidegger por ocasião da publicação de seu livro, Jonas teve a notícia de que seu antigo mestre se queixara: “‘Jonas, meu antigo aluno, circulou esse verão, ou primavera, de universidade em universidade, com um grande ataque contra mim’. Mas a queixa estava nisso que segue: ‘e ninguém se levantou para tomar partido ao meu favor’”. Segundo Jonas, um exagero, pois “houve, sim, aqui e ali os que se levantaram para defender o ponto de vista heideggeriano”.

1965

Reconciliação com Arendt. Foi pelo impulso de Lore, sua esposa, que Jonas toma a atitude de reatar a amizade de uma vida, embora sob o acordo entre eles de nunca tocar no assunto do livro de Arendt sobre Eichmann. A amizade continuou a mesma apesar daquela lacuna. Apesar do novo modo altivo que encontrara nela, depois da pequena separação, algo que Jonas atribuía a sua fama, ela não perdera aquilo que ele chamou de “gênio da amizade”. Para representar isto ele recorda dois episódios. O primeiro refere-se ao fato de que Arendt o incluira em seu  testamento por saber das dificuldades que Jonas teve em determinado momento da vida em New York – algo que ele só veio a saber depois da morte dela por intermédio de seu advogado e primo, que morava em Tel Aviv, Ernst Fürst, quem lhe dissera que Arendt só o tirou de seu testamento quando fora aprovada a Lex Arendt, lei pela qual ela lutou por sete anos para que fosse aprovada em reconhecimento de judeus que com a ascensão do nazismo foram privados da oportunidade de habilitarem-se, isto é, de entrarem no circuito profissional alemão como professores. O segundo episódio salientado por Jonas é aquele da assistente de Arendt, Sally, a quem ela pagou de maneira independente a educação privada de seu filho. Além do “gênio da amizade”, esses episódios confirma aquilo que acima vimos Arendt confessar como parte de sua personalidade, seu money-panic.

1966

- Publicação daquele que Jonas considera ser sua obra mais importante: The Phenomenon of Life.

- Profere a conferência “Delimitation of the Gnostic Phenomenon – Typological and Historical”, apresentada originalmente no International Colloquium on the Origins of Gnosticism, em Messina entre os dias 13-18 de Abril de 1966. Mais tarde, esta palestra foi publicada com o título “The Gnostic Syndrome: Typology of its Thought, Imagination, and Mood” (cf. PE XIII 263-276).

1967

Apresenta em outubro deste ano, no Colóquio sobre Judaísmo e Cristianismo, na Harvard Divinity School, a conferência “Jewish and Christian elements in philosophy”, que viria a compor depois o livro Philosophical Essays (cf. PE 21-44)

1968

- Em janeiro deste ano, Jonas apresenta a primeira conferência em que trata de sua ética da responsabilidade: “Contemporary problems in ethics from a Jewish perspective”. Dois meses depois, em março, Jonas volta mais uma vez à reflexão ética, agora no simpósio dedicado ao livro de seu colega Adolph Lowe, com a conferência “Socio-economic knowledge and ignorance of goals”, que traz já uma primeira versão do imperativo de responsabilidade. Ambos os textos foram publicados mais tarde no livro Philosophical Essays (cf. PE 81-104; 168-182).

- Jonas e Arendt ministram, juntos, um curso sobre o Teeteto de Platão[32];

- A palestra Philosophical Reflections on Experimenting with Human Subjects é apresentada originalmente perante a Academia Americana de Artes entre os dias 26-28 de setembro deste ano, que viria a ser publicada na primavera do ano seguinte na importante revista Daedalus[33].

1969

- Reencontro e reatamento das relações com Heidegger, depois do rompimento durante a ascensão do nazismo. Neste mesmo ano, Jonas profere sua conferência de homenagem ao 80º aniversário de Heidegger: “Wandel und Bestand”, publicada como livro no ano seguinte.

- Como resultado do impacto público de seu ensaio sobre a experimentação com sujeitos humanos, Jonas passa a fazer parte da fundação Hastings Center, da qual se torna membro através do convite do próprio fundador, Daniel Callahan. Jonas contribuirá com esse instituto durante os 20 anos seguintes.

1970

Jonas frequenta, como convidado especial, o Centro Médico da Universidade de São Francisco, onde toma parte dos novos avanços na área de transplante de órgãos (cf. Erinnerungen 318). Neste mesmo ano, ele escreve seu ensaio Against the stream, publicado pela primeira vez, entretanto, apenas quatro anos mais tarde em seu Philosophical essays (1974).

1971

Publica seu ensaio “The scientific and technological revolutions”, publicado também mais tarde no livro Philosophical Essays (cf. PE 45-80).

1972

Em carta de 23-7-1972, para Arendt, Jonas anuncia já está ocupado com o tratado que àquela época ela chamava em título estritamente privado de Tractatus-ethico-technologicus, o qual viria a ser sua obra mais famosa.

1973

Publica o seu grande Organismus und Freiheit.

1974

Publica o livro Philosophical Essays.

1975

Morre a grande amiga de Jonas, Hannah Arendt, em cujo velório, no dia 8 de dezembro, na Riverside Memorial Chapel, em New York, ele pronuncia o seu panegírico, que foi publicado no ano seguinte na Social Research.

1976

- Em abril deste ano, Jonas profere conferência em homenagem de Arendt, no simpósio em memória da pensadora realizado pela New School. Apesar de escrito originalmente em inglês, o texto foi publicado neste mesmo ano em uma versão alemã, e só no ano seguinte, em inglês, na Social Research.

- Em julho deste mesmo ano, morre seu antigo professor e amigo Rudolf Bultmann, em cuja homenagem Jonas profere, em simpósio em memória do famoso teólogo, sua conferência “Im Kampf um die Möglichkeit des Glaubens. Erinnerungen an Rudolf Bultmann und Betrachtungen zum philosophischen Aspekt seines Werkes”.

- No outono deste ano ainda, Jonas se aposenta da New School e passa a se concentrar na finalização de seu livro sobre a ética da responsabilidade, com o qual já estava envolvido desde o início dos anos 70.

1978

Publica o livro On faith, reason and responsibility.

1979

Publica o famoso Das Prinzip Verantwortung, que lhe rende sucesso estrondoso quase imediato.

1981

Publica o opúsculo Macht oder Ohnmacht der Subjektivität? [Potência e impotência da subjetividade], versão substancialmente aumentada da primeira versão em inglês, publicada em 1974.

1982-1983

Durante este período, leciona como professor convidado (na cadeira Erich Voegelin) na Universidade Ludwig-Maxmilian, em München.

1984

Recebe da faculdade de teologia protestante da Universidade Eberhard-Karls, de Tübingen, o prêmio Leopold-Lukas. Na cerimônia de entrega do prêmio, Jonas profere sua conferência Der Gottesbegriff nach Auschwitz. Eine jüdische Stimme, que já tinha sido publicado em inglês numa primeira versão, em 1978.

1985

- Publica Technik, Medizin und Ethik.

- Profere, nas Jornadas “Sociedade Industrial e Ética do Futuro” da Fundação Friedrich-Ebert, entre os dias 25 e 26 de outubro de 1985, em Bonn, a palestra “Zur Grundlegung einer Zukunftsethik”, publicada mais tarde no último livro publicado pelo próprio Jonas (cf. PUMV 128-146). É nessa mesma jornada que Apel apresenta seu ensaio crítico sobre Jonas;

1986

No segundo semestre desse ano, Jonas se encontra mais uma vez numa jornada pela Alemanha:

- Em 20-22 de Junho, Jonas se encontra em Essen, onde profere, no Sexto Congresso de Direito Político do Partido Social Democrata Alemão, a conferência “Rechte, Recht und Ethik: wie erwidern sie auf das Angebot neuester Fortpflanzugs-techniken?”;

 

- Em 9 de outubro, ele concede entrevista a Andreas Isenschmid, para a Rádio Suíça[34];

 

- Dias depois, em 15 de outubro, agora em Heidelberg, profere a palestra “Wissenschaft als Personaliches Erlebnis”.

1987

- Em 11 de outubro, agora na cidade de Frankfurt am Main, ele oferece ao mundo “Technik, Freiheit und Pflicht”, discurso de agradecimento por ocasião do recebimento do Prêmio da Paz das Livrarias Alemãs;

1988

Publica o importante opúsculo Materie, Geist und Schöpfung.

1990

Doutor honoris causa da Universidade de Bamberg.

1991

Doutor honoris causa da Universidade de Konstanz.

1992

- Doutor honoris causa da Universidade de Berlin.

 

- Profere,  em 25 de maio deste ano, a conferência Philosophie: Rückschau und Vorschau am Ende des Jahrhunderts, publicada postumamente como livro no ano seguinte.

 

- Publica Philosophische Untersuchungen und metaphysische Vermutung.

 

 

1993

Último discurso de Jonas, “The outcry of mute things”, pronunciado em 30 de janeiro de 1993, em Udine (Itália), por ocasião do recebimento do Prêmio Nonino, honrando Das Prinzip Verantwortung como o melhor livro traduzido para o italiano durante o ano de 1992. O texto originalmente escrito em inglês foi mais tarde publicado numa coletânea editada por Lawrence Vogel (cf. Jonas, 1996, p. 198-202).  O filósofo o fez contrariando todos os conselhos médicos que o preveniam de fazer viagens transatlânticas. Jonas morreu seis dias depois, em 5 de fevereiro de 1993, aos 89 anos, após retornar da Itália, em sua casa em New Rochelle, New York.

 

[1] Este ensaio se encontra atualmente publicado num dos volumes da Edição Crítica (cf. KGA III/2, p. 161-166)

 

[2] No Apêndice III, oferecemos uma exposição detalhada dos cursos e seminários de Heidegger que Jonas frequentou.

 

[3] Cf. GA 18.

 

[4] Na entrevista a Culianu, Jonas fala de 1926; nas Erinnerungen, tudo leva a crer que o ano era 1925. A confirmação pode ser extraída do Nachlass de Jonas, que hoje se encontra na Universidade de Konstanz, no qual consta tal seminário (Referat), cuja data indica que o trabalho foi proferido exatamente no dia 9 de julho de 1925 (cf. HJ-2-17-43);

 

[5] cf. GA 25.

 

[6]  Aqui, um pequena confusão pode ser feita, pois inicialmente Jonas diz que já no outono de 1928 – portanto, já no fim de 1928 – tinha terminado e entregue seu trabalho de doutorado para Heidegger, mas logo em seguida diz que seu exame final foi no dia 29 de fevereiro de 1928, uma data anterior ao que dissera a respeito da entrega do trabalho. Em qual dos dois lugares Jonas – ou a pessoa responsável pela transcrição da entrevista – comete o lapso? A resposta deve ser em relação à primeira passagem, pois Jonas afirma que a defesa de sua tese se deu em um ano bissexto – algo muito mais difícil de esquecer. Ora, 1928 foi um ano bissexto, 1929 não. Assim Jonas defendeu sua tese em 29 de fevereiro de 1928.

 

[7] O material preparado por Jonas para esse seminário se encontra hoje no Archiv Hans Jonas (cf. HJ-16-17-1). Embora o documento esteja datado, de maneira muito geral, com a inscrição “Hans Jonas, 1928-1929”, o que poderia indicar o semestre de inverno de 1928-29 na Universidade de Heidelberg, o próprio Jaspers parece dar a entender que a apresentação foi provavelmente em maio ou junho, uma vez que em duas cartas, de 4 e 6 de junho de 1928, para Heidegger, ele já comenta tal apresentação do Dr. Jonas (cf. Heidegger/Jaspers, 2006, p. 81;  Jaspers, 1989, p. 30).

 

[8] Tal intervenção pública foi publicada com o título “Karl Manheims Soziologie des Geistes” (cf. Jonas, 1929). Hoje se encontra publicada já num dos volumes da Edição Crítica de Jonas (cf KGA III/2 , p. 175-180).

 

[9] cf. Carta de Blücher para Arendt, de 24-12-1949 (cf. Arendt & Blücher, 2000, p. 110. A percepção de Blücher é confirmada com o que Lore Jonas diz a Scholem em carta de 1º de setembro de 1949.

 

[10] Cf. carta a Scholem, de 28 julho, Fonds Gershom Scholem, JNUL, 4°, 1599.

 

[11] Jonas comenta sua relação com Bertalanffy em uma carta a Scholem de 5 de novembro de 1950: “ele era um homem de formação universal e tinha profundos interesses filosóficos. Mas desempenhou, antes de tudo, um importante papel no desenvolvimento da biologia teórica moderna. Ele descobriu a teoria dos sistemas abertos...”. “Ele me chamou de ‘aristotélico antiquado’, para o que até agora não encontrei nenhuma contra-resposta (Gegenbeschimpfung) correspondente” (Brief an Fania Scholem, 5. Nov. 1950, Nachlaß Gershom Scholem, JNUL 4°,1599).

 

[12] A confirmação disso está na carta a Gershom Scholem de 10 de outubro de 1951, na qual Jonas também explicita suas boas impressões sobre o curso e os alunos.

 

[13] Em uma carta em hebraico, de 30 de outubro de 1951, Jonas, não sem certa demora em sua resposta, recusa por motivos extra-acadêmicos o convite da Universidade Hebraica de Jerusalém, enviando, inclusive, cópia para Scholem.

 

[14] cf. Arendt & Blücher, 2000, p. 185.

 

[15] Ibid., p. 190.

 

[16] Ibid., p. 193.

 

[17] Ibid., p. 195.

 

[18] Ibid., p. 215.

 

[19] cf. Schultz & Gurwitsch, 1989[1985], p. 223.

 

[20] cf. Barber, 2004, esp. p. 156.

 

[21] Barber, 2004, p. 158. Mais dois desentendimentos entre Schutz e Jonas viriam a acontecer, agora em relação ao trabalho de Werner Marx. A primeira desavença concernia o fato de Schutz ter escalado um curso de W. Marx intitulado “Problems of fundamental ontology”, o que obrigava Jonas a mudar o título do curso que ele planejara, o qual também continha o termo “fundamental ontology”. Jonas não se queixou disso apenas, mas também fez questão de enfatizar que W. Marx sequer deveria ensinar o curso, pois Jonas o considerava um “devoto sem crítica” a respeito de Heidegger, tendo, inclusive, rejeitado um artigo de Marx para a Social Research. Esse atrito ocorreu no início de 1956, e Schutz afirma em carta de maio de 1956 para Aaron Gurwitsch que “não está, pessoalmente, em bons termos” com Jonas (cf. Schultz & Gurwitsch, 1989, p. 223). Em carta, de maio de 1956, para Gurwitsch, Schultz continua a enfatizar que suas relações com Jonas não são muito boas (cf. Schultz & Gurwitsch, 1989[1985], p. 255). O segundo desentendimento envolveu novamente Werner Marx, só que agora o problema envolveu um trabalho de Marx sobre Aristóteles, trabalho que Jonas não via com bons olhos – algo que Schutz concordava, embora não como algo que fosse motivo para não indicação do cargo de professor para Marx, o que, entretanto, defendia Jonas. Vale lembrar que Gadamer tinha também apreço pelo trabalho de Werner Marx e abriu portas para que publicasse um de seus livros pela editora alemã Nijhoff (cf. Barber, 2004, p. 158). Não obstante estes desentendimentos com Schutz, é Jonas quem escreve o memorial em homenagem à Schultz na Social Research.

 

[22] Segundo Michael Barber, Jonas foi “o primeiro professor da história da [New] School a receber posse no mesmo dia da nomeação [isto é, 1 de janeiro]” (Barber, 2004, p. 157).

 

[23] cf. Arendt & Blücher, 2000, p. 233.

 

[24] cf. carta de 1-5-1955 (ibid., p. 253).

 

[25] Ibid., 294.

 

[26] Ibid., p. 298.

 

[27] Ibid., p. 331-332.

 

[28] Schutz revela o contexto que envolveu essa breve licença de Jonas em uma carta, de 16 de março de 1958, para Gurwitsch: “Jonas foi eleito vice-decano da [New] Scchool no ano 1958-59 (um ano importante, já que se trata do 25º Aniversário da Graduate Faculty), mas colocou como condição que se ausentasse durante o ano inteiro de 1959-60: ele reivindicou a um semestre como sabático, e quer outro como licença de ausência. Ele planeja terminar não apenas seu livro sobre biologia, mas também o terceiro volume (sobre Plotino) de seu livro sobre o gnosticismo, p\ra cujo fim ele quer estar na Europa com sua esposa e os três filhos durante esse ano” (Schultz & Gurwitsch, 1989, p. 288).

[29] Arendt propôs-se a William Shawn (editor do New Yorker) para fazer a cobertura do julgamento (cf. Young-Bruehl, 1993, p. 418). Uma vez aceita a proposta, ela entra em contato com Kurt Blumenfeld (importante nome do movimento sionista), pedindo-lhe que a mantivesse informada a respeito das notícias que circulavam na imprensa israelense sobre o caso. Muito antes de se propor como relatora do julgamento, discutia por carta com Jaspers sobre o processo legal de extradição de Eichmann da Argentina até Israel.

 

[30] Discutir o conhecimento e participação de Jonas com o sionismo é tarefa de gente extravagante. Desde cedo, aos 16 anos, Jonas esteve envolvido com o movimento recebendo primeiro a recriminação de seu próprio pai, que acreditava ainda em uma assimilação pacífica dos judeus, depois do grande pensador e seu professor Edmund Husserl, que ao saber que Jonas participava do círculo sionista acusara a neutralidade e pureza da vocação filosófica de Jonas, participava ativamente dos congressos do movimento, “recrutando”, inclusive, palestrantes e personalidades para esses eventos, como o próprio Kurt Blumenfeld (Erinnerungen 289), lutou na guerra contra a Alemanha nazista, e por fim padeceu duras críticas de seus amigos judeus ao recusar um posto na Universidade de Jerusalém quando já instalado em New York (e isto principalmente por motivos familiares).

 

[31] Enquanto Young-Bruehl (1993, p. 447) diz “Jonas escreveu a Hannah, a ao não receber resposta, cortou toda comunicação com ela”.

 

[32] Como revela Kohn (2006, p. 91): “numa tarde de domingo no início de junho de 1968, Lore e Hans Jonas, juntamente com Hannah Arendt, deram uma festa no jardim da casa de Jonas em New Rochelle, que fica a uma curta viagem de trem de distância da cidade de New York City. A ocasião marcou a conclusão dos cursos do semestre de primavera de Arendt e Jonas na Graduate Faculty of the New School for Social Research. Cada um deles lecionou dois cursos, dos quais um, o seminário sobre o Teeteto de Platão, eles lecionaram juntos (co-taught). Retrospectivamente, a gente se pergunta por que eles fizeram aquilo, uma vez que o seminário, a despeito de sua considerável promessa, foi uma experimento pedagógico contencioso. Os interesses de Jonas eram históricos e epistemológicos, enquanto Arendt estava interessada em reveler o pensamento de Platão, e por extensão toda forma de pensamento, enquanto uma atividade que não resulta em conhecimento de tipo algum. Não é preciso dizer, os dois velhos amigos nunca mais repetiram o experimento novamente”.

 

[33] Diferentemente do que diz Jonsen (1998, p. 77) a respeito da data, que segundo ele foi novembro de 1967, o ensaio de Jonas foi primeiro apresentado em setembro de 1968, e publicado na primavera de 1969, na revista Daedalus (cf. Jonas, 1969), sendo depois publicado com revisões mínimas no livro de Jonas intitulado Philosophical Essays. O convite, entretanto, como o próprio Jonas o relata em suas Memórias, aconteceu, de fato, em 1967 (cf. Erinnerungen 316).

 

[34] A entrevista foi publicada mais tarde com o título de “Heideggers Entschlossenheit und Entschluss” (cf. Jonas, 1988)