A   P E S Q U I S A

GNOSE, VIDA, TÉCNICA E RESPONSABILIDADE

A GNOSE 

​A Gnose constitui uma das primeiras preocupações de Hans Jonas, tendo sido o tema da sua tese doutoral defendida em 1928, com o título Der Begriff der Gnosis, sob a orientação de Heidegger. O texto foi parcialmente publicado em 1930 (Der Begriff der Gnosis. Inaugural-Dissertation zur Erlangung der Doktorwürde der Hohen Philosophischen Fakultät der Philipps-Universität zu Marburg, Hubert & Co., Göttingen) e assumido como parte da versão da obra publicada, postumamente, em 1993 (páginas 597-667 e 675-680 da edição italiana que consta nas referências). Em 1934 é publicado Gnosis und spätantiker Geist. Erster Teil: Die mythologische Gnosis (reimpresso em 1954, 1964 e 1988) ao qual deveria seguir, imediatamente, um segundo volume, já e parcialmente escrito pelo autor, projeto que fora interrompido pelo advento da II Guerra Mundial. Gnosis und spätantiker Geist. Teil II, 1: Von der Mythologie zur mystischen Philosophie, só seria publicado em 1954 (reimpresso em 1966 e 1993). Em 1958, já na New School of Social Research, Jonas publicou uma versão abreviada do texto, de caráter mais “divulgativo”, intitulada The Gnostic Religion. The message of the Alien God and the Beginnings of Christianity. Esse texto abrevia a fundamentação filosófica da obra maior e concentra-se basicamente sobre a gnose mitológica, tratando apenas de forma breve a transformação místico-filosófica da gnose, presente na segunda parte e nos textos posteriores, sobre Plotino. Mas no geral, ele mantém a mesma linha argumentativa do trabalho, somada a uma maior precaução em relação ao uso da interpretação existencial heideggeriana (para uma apresentação crítica dessa fase cf. Karen L. King, “Translating History: Reframing Gnosticism in Postmodernity” in: Christoph Elsas, ed., Tradition und Translation: Zum Problem der interkulturellen Übersetzbarkeit religiöser Phänomene [Berlin: de Gruyter, 1994], 264–77, esp. 265–73). Em 1967 Jonas escreve o verbete sobre Gnosticism para a Encyclopedia of Philosophy, texto que guarda similaridades com outro do mesmo ano, intitulado Delimitation of the Gnostic Phenomenon: Typological and Historical (publicado por Ugo Bianchi em Le origini dello gnosticismo [Leiden, E. J. Brill, p. 90-108] e reeditado como o capítulo treze dos Philosophical Essays, de 1974, cujo título é The Gnostic Syndrome. Typology of its Thought, Imagination, and Mood. Essa publicação é resultado da Conferência sobre as origens do Gnosticismo, organizada por Ugo Bianchi em Messina, entre os dias 13 e 18 de abril de 1966, com a participação de iminentes especialistas no assunto, entre os quais, além do próprio Jonas, estavam J. Ries, G. Gnoli, G. Quispel e Kurt Rudolph. Uma das principais discussões desse evento foi a definição do termo gnosticismo em relação a gnose (cf. SMITH, Norton, The History of the term gnostikos, 1996, esp. p. 183-189). Em 1993, uma versão definitiva do trabalho inicial de Jonas foi publicada sob coordenação de Kurt Rudolph, na qual foram acrescentados os textos sobre Plotino que Jonas havia escrito de forma esparsa ao longo dos anos, embora desde muito cedo indicado como parte fundamental da discussão sobre a passagem da mitologia à filosofia mística. Apesar de ter acompanhado a organização e edição desses textos na nova versão da obra, Jonas faleceu às vésperas de sua publicação. Todos esses elementos comprovam que o tema do gnosticismo, tratado como uma tipologia existencial, se manteve como um dos interesses centrais de Jonas durante toda a sua vida.

 

VIDA​
Segundo relato de sua esposa no prefácio de suas Memórias, em 1945, enquanto lutava na II Guerra Mundial, Jonas teria se interessado pelas ciências naturais e ela lhe teria enviado para o campo de batalha livros de Charles Darwin, além de Aldous Huxley e John Haldane. Dessas leituras teriam surgido as chamadas “Cartas formativas”, que deram origem mais tarde à obra Organism and Freedom e a versão publicada m e1966 como The phenomenon of life: Toward a Philosophical Biology, cuja tradução em português, O princípio vida: ensaio de uma biologia filosófica segue a versão alemã (Organismus und Freiheit e, depois, Das Prinzip Leben). A proposta dos estudos jonasianos é propor uma reinterpretação do fenômeno da vida por meio de uma filosofia da vida, que conjuga a ontologia, a fenomenologia e a biologia.
TÉCNICA​
A técnica é um dos temas centrais da obra de Hans Jonas, tendo sido tema de vários artigos, conferências e livros. Três de suas obras mais importantes, inclusive, apontam, já por seus títulos, ao fato de que o avanço da técnica é uma questão fundamental de sua filosofia: Philosophical essays: from ancien creed to tecnological man (1974); The imperative of responsability: in search of an ethics for the technological age (1979); e Technik, medizin und ethic (1985), cujos dois primeiros capítulos resumem as teses centrais do autor sobre o assunto. Esses dois textos podem ser considerados uma espécie de esboço ou mesmo de projeto de uma filosofia da tecnologia, que seria fundada em três pilares: uma análise da forma; uma descrição do conteúdo; e uma avaliação ética. Do ponto de vista metodológico, os dois primeiros pilares seriam analíticos e descritivos, e o terceiro, valorativo. A partir dessa estrutura, Jonas desenvolve um diagnóstico contundente e realista do avanço dos poderes tecnológicos a partir da era moderna, suas consequências filosóficas e seus desafios éticos no âmbito da vida humana e extra-humana. Jonas parte de uma descrição e análise históricas do desenvolvimento e do avanço dos progressos tecnológicos, mas também da promessa utópica e apocalíptica nele contida. É esse o caminho proposto e praticado por Jonas na sua própria filosofia da tecnologia. Esse projeto seria estruturado a partir de três pilares centrais: o primeiro deles seria a descrição da dinâmica formal da tecnologia; o segundo, do seu conteúdo substancial; e o terceiro, da sua face ética como exigência de responsabilidade pelo uso dos novos poderes.
RESPONSABILIDADE​
A responsabilidade é a base da nova proposta ética desenvolvida por Hans Jonas, cujo estofo parte de uma análise da “natureza modificada do agir humano” (PR, 27) trazido pela tecnologia, em vista de uma reflexão capaz de orientar as ações humanas diante dos novos poderes. Trata-se, agora, de pensar uma ética que não esteja mais limitada [1] ao horizonte do antigo antropocentrismo (afinal, agora precisamos cuidar da vida como um todo); [2] da visão de neutralidade ética da natureza (os novos poderes elevam as possibilidades de que a ação humana interfiram de forma decisiva no mundo natural); [3] da constância da entidade “homem” (agora objeto da técnica reconfiguradora, embora sem uma imagem capaz de orientar essa tarefa); [4] o curto prazo do planejamento da ação (agora precisamos prever em longo prazo no tempo as consequências das nossas ações); e [5] ao círculo imediato da ação (hoje precisamos pensar nas gerações futuras). Responsabilizar-se, assim, [1] significa reconhecer a vulnerabilidade da natureza e as novas dimensões de seu poder, [2] prever os danos possíveis e [3] alterar a sua ação a fim de evitá-los. Para tanto, a nova ética deve reunir o máximo de informações advindas das demais ciências, a fim de forjar um diagnóstico o mais preciso possível dos danos que atingem, no momento presente, a vida como um todo. A isso Hans Jonas chama de “futurologia compartativa” (PR, 70). Além disso, é preciso combater a ingenuidade das promessas do progresso tecnológico, que acabam forjando uma versão limitada e enganosa dos benefícios futuros das ações técnicas do presente; para isso é preciso dar preferência ao prognóstico negativo, por meio daquilo que Jonas chama de “heurística do temor” (PR, 70), ou seja, em termos técnicos, o reconhecimento do malum deve ter preferência ao do bonum. Cabe à ética, afinal, prever os efeitos distantes da ação técnica, operando por meio de “diagnósticos hipotético relativos ao que se deve esperar, ao que se deve incentivar ou ao que se deve evitar” (PR, 70). Para isso, ela lança mão da “futurologia comparativa” e da “heurística do temor” (PR, 71). Jonas elabora, por isso, uma ética baseada no “dever primário com o Ser, em oposição ao nada” (PR, 87), interpretado agora como o risco do nada absoluto, ou seja, o desaparecimento das várias formas de vida no planeta. Tal perspectiva leva à formulação de um novo imperativo, cujo cerne é a prudência e cuja formulação parte do dever de existir da própria humanidade no futuro: “aja de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra” (PR, 47).